Sunday, March 30, 2008

Ah, liberdade.

A idéia de "nação", um povo unido por um sentimento de identidade comum, é uma influência que se generalizou bastante recentemente, ganhando força a partir do século XVIII. Mas o termo do qual "nação" provém, natio, não é tão recente assim.

Disse Cícero, usando o latim clássico, em Os Filipenses Contra Marco Antônio em 44 a.C., contrastando nationes ("raças de pessoas") externas, inferiores, com a civitas romana ("comunidade"):

"Omnes nationes servitutem ferre possunt: nostra civitas non potest."
("Todas as raças são capazes de suportar a escravidão, mas nossa comunidade não pode.")
Desse termo vem o famoso "nacionalismo" que podemos ver como uma doutrina ou movimento político segundo o qual um nação, no sentido de etnia ou cultura, tem o direito de constituir uma comunidade política autônoma e independente baseada no passado compartilhado e no futuro comum.
Algumas formas extremistas de nacionalismo, como as propagadas por movimentos fascistas do século XX, pregam que o nacionalismo é o aspecto mais importante da identidade de um indivíduo, enquanto outras têm tentado definir nação em termos de raça ou genética.

A partir do século XVIII o mundo, que antes havia sido basicamente dividido ou em grandes blocos, regidos por impérios, ou em tribos "bárbaras" sem a complexidade de organização burocrática das grandes potências, viu-se fragmentar mais e mais e movimentos nacionalistas de diversas ordens e naturezas passaram a brotar, cada um a seu próprio modo e tempo.

Estamos acompanhando no momento o conflito em China e Tibete que tem ganho os noticiários de TV e jornais. Manifestações no mundo inteiro suportam o movimento tibetano por reconhecimento. O movimento começou em 10 de março de 2008, 49º aniversário da Revolta Tibetana de 1959 contra o domínio do partido comunista. Tudo começou pacificamente mas os protestos por liberdade logo se tornaram violentos. No dia 14 começaram ataques a grupos étnicos não-tibetanos, destruição, incêndios e saques. Tensão política, problemas de ordem sócio-econômica (como o comparativo sucesso econômico de grupos não-tibetanos e alta da inflação) e a fúria pelos rumores de prisão de monges levou a conflitos. Os ataques têm acontecido principalmente contra os chineses da etnia Han, predominantes na China.

Conversando com um amigo essa semana, Sr. Peter John Ollerenshaw, de Harpenden, na Inglaterra, 60 anos, me surpreendi com algumas de suas idéias e fiquei bastante pensativo sobre nossas diferenças em ideologia. Perguntado sobre os conflitos no Tibete respondi que temia pela vida daquelas pobres pessoas envolvidas num conflito político de tal magnitude, sob um governo totalitário. Recebi uma resposta muito franca que me incomodou:

"Sacrifice has always been one of the costs of freedom as we know well in this country or at least should if we read our history".

"Sacrifício sempre foi um preço para a liberdade como bem sabemos neste país ou pelo menos deveríamos se lêssemos nossa História."

Expliquei a ele então que tipos de luta pela liberdade podem haver e citei bastante detalhadamente o processo de independência do Brasil. Em sua visita ao Brasil passamos uma agradável manhã no museu do Ipiranga e nos demoramos um bocado de frente ao quadro representando o grito da independência. Nesta conversa lembrei meu amigo de sua surpresa ao ver o quadro. Bem ao centro nos lugares de destaque vê-se Dom Pedro, os nobres e seus exércitos se reunindo, clamando logicamente a independência do Brasil. Bem ao canto, alheio a tudo que se passava, está um camponês que olha impressionado com aquela postura: "Quem são esses caras?"

Grandes Farsas Brasileiras I


Bem sabemos que a vida daquele camponês não mudou em nada após o famoso grito. Fosse um grito de independência, fosse um grito de susto o camponês continuou andando com sua vaquinha preocupado com seus afazeres; a realidade é que meu amigo percebeu algo muito óbvio. "Onde está o povo?", foi a primeira coisa que ele perguntou. Muitos brasileiros vêem esse quadro durante toda a vida e não fazem essa pergunta. Aqui vai minha resposta na íntegra para a pergunta do Tibete:

"Concordo, mas liberdade num sentido amplo é, na maior parte do tempo, um conceito cultural, e eu acho que seria no mínimo interessante conhecer qual é a visão dessas pessoas sobre a liberdade. O que realmente querem. Se suas vontades são governadas por líderes religiosos ou por militantes então a 'liberdade' deles pode não vir do jeito que esperam... o Brasil por exemplo, não foi o povo que lutou pela independência. Quero dizer, fomos nós que morremos mas defendendo os interesses de outras pessoas".
O fato é que a independencia só se concretizou com o bater de pés dos grandes: nobres, latifundiários e escravocratas, e quando a arquiduquesa da Áustria e imperatriz do Brasil, Dona Maria Leopoldina envia uma carta a Dom Pedro, juntamente com outra de José Bonifácio, além de comentários de Portugal criticando a atuação do marido e de Dom João VI, exigindo que D. Pedro proclame a Independência do Brasil e, na carta, adverte: O pomo está maduro, colhe-o já, senão apodrece. Isso porque a economia do Brasil já não estava nas mãos de Portugal mas sim da Inglaterra.

Talvez o movimento brasileiro por liberdade tenha ocorrido com as "Diretas Já!".

Interessante como não ocorreu a meu caro amigo inglês a noção da manipulação e do poder coercivo da nobreza - a Europa sempre tão nas mãos da aristocracia - e da força política fornecida pela posse, antes de terras, depois dos meios de produção brutos, hoje do conhecimento tecnológico. A origem do conflito atual no Tibete, entre outros fatores, remonta ao domínio comunista, do qual os Estados Unidos sempre foram inimigos mortais. A maior potência mundial (ainda) de nossa época mostra-se favorável ao levante contra a dominação chinesa. Não é de se desconfiar que algo cheira mal? Os Estados Unidos sempre se ocuparam de pregar seus ideais de igualdade, fraternidade e liberdade, mas sempre reprimiram violentamente todos os que não se dobrassem aos seus ideais. E a presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, pede ação contra a China por causa do Tibete.

Não é por acaso violência e assassinato o que ocorre em países embargados, em que mulheres e crianças passam fome até a morte por falta de recursos e infra-estrutura, por sugestão dos EUA em manter uma política econômica de restrição e privação? Os que rejeitam se curvar aos ditames da potência atual sofrem severa punição. Cuba estagnou-se, no Irã pessoas morrem aos milhares todos os anos pela poluição excessiva da frota de automóveis de décadas atrás, no Iraque nada de armas de destruição em massa e milhares de civis mortos. E que dizer dos palestinos que atacam com pedras e paus e recebem bombardeios de Blackhawks e mísseis tele-guiados que acidentalmente matam vitimas civis inocentes? Consideram-se a polícia do mundo e tomam decisões arbitrárias sem o consenso de outros. Seu orgulho é de dar pena.

E quanto à religião que sempre tanto se intrometeu nos assuntos políticos? Deixou o Ocidente em escuridão durante a Idade Média. No Japão medieval monges-guerreiros matavam-se pelas ruas. Causa divisão política-territorial e morte aos da Cristandade no Reino Unido, em conflitos xiitas e sunitas ateiam fogo uns aos outros por vingança no Iraque, mesmo a separação da Coréia tem fatores religiosos embutidos.
Na época da Segunda Guerra e tempos anteriores o imperador era a deidade suprema, Deus na terra, a quem os japoneses deviam obediência incondicional. Após sua rendição e reconhecida derrota em 1945, após a brevíssima, mas destrutiva, participação dos EUA com as bombas atômicas, o império japonês xintoísta perdeu força de dentro para fora. Os súditos, aohitogusa, ou “crescentes ervas daninhas humanas”, que deveriam proteger o imperador, Hirohito na época, por lhe servirem de escudo, retiraram seu apoio. Acabou o domínio japonês sobre a Coréia que se dividiu entre Coréia capitalista e Coréia comunista graças ao conflito EUA vs. URSS (vale lembrar que a maioria dos coreanos era contra a ocupação de seu país pelas duas superpotências da época).
O Dalai Lama do Tibet vem aos poucos perdendo sua influência, principalmente entre as gerações mais jovens. Como a instituição religião lidará com essa tendência mundial? A perda de fiéis está diretamente ligada à perda de força política.

Longe de mim aqui discutir o direito à luta pela liberdade. Mas o importante é pensar o conceito de liberdade separado da visão ocidental que temos do Oriente. O que sabemos deles foi fabricado, os vemos através da lente européia, calcada sob o olhar opressivo da Cristandade da Idade Média que regia: expansão da pátria & da fé, quase um slogan. Não podemos ver o fato de que podemos comprar celulares como a manifestação máxima de liberdade, nem de que temos eleições diretas como nos fazendo melhores do que os sistemas de governo de parlamento. É ledo engano pensar que somos livres. Sair de um sistema comunista para um capitalista é simplesmente trocar de dono. O problema é que o dono do capitalismo quer ter mais aohitogusa que sejam combustível para seu sistema, dançando ao ritmo de sua valsa decadente reproduzida em MP3.

Illustration by Kevin Kallaugher

Acima:
- É parte do treinamento deles para as Olimpíadas da China...
- Para encarar a poluição?
- O gás lacrimogênio...

No jornal do senhor de óculos: "Conflito no Tibete"

Thursday, March 27, 2008

Palmas para mim, eu leio Pessoa

Vagabundeando Internet afora, Orkut, ao qual me re-afiliei recentemente, deparei-me com uma comunidade muito interessante voltada a disseminação da cultura e da leitura. Há muitas entrevistas interessantes, traduzidas da Newsweek ou de outras revistas pop que dificilmente a população tem acesso, comentários sobre eventos culturais, tudo muito lindo. Descendo um pouco a página me deparo com a enquete atual: "Quantos livros você lê por mês?". Meu professor de literatura, diga-se de passagem, daria um risinho irônico, movido pela pena talvez. Me surpreendi ao ver as opções:
1 - Não gosto de ler;
2 - 0 a 2 livros;
3 - 2 a 5 livros;
4 - 5 a 10 livros;
5- 10 a 20 livros.

Até aí ótimo, a Internet está cheia de enquetes estúpidas. "Qual a cor do seu cachorro?" ou "Quem já comeu os cogumelos da Malásia?" são comuns mas, foi no mínimo interessante ver que num site que se propõe a "oferecer conteúdo interativo, inteligente, culto e de indiscutível bom gosto", encontram-se tantas pessoas com comentários como "Eu leio 35 livros por mês", "Todos me admiram, porque leio 4 livros por semana", "Eu geralmente só leio 8 livros por mês, mas ó, dessa grossura"... ¬¬


Minha teoria, baseada na minha cartilha de meros 22 anos mal-vividos, diz que a culpa geralmente não é da resposta, mas sim da pergunta (acho que cheguei a essa conclusão assistindo Chaves). Perguntas desse tipo abrem margem para respostas desse teor. Não culpo as pobres almas que lêem 86 livros por semana por fazerem isso, ou por se orgulharem disso. Afinal, num país em que tanto o acesso ao livro como o hábito da leitura é quase inexistente, só posso concluir que são privilegiados os indivíduos que performam tal façanha.

Mas talvez uma outra perguntinha se valesse de menos senso comum, que tal: "Lembra-se do título do último livro que leu?", ou "Compartilhe o assunto/história do último livro que leu". Já dizia o poeta, "Lembrar é viver outra vez".

Talvez um pouco de reflexão nos falte no sentido de estarmos até o pescoço na sociedade consumista que nos nossos dias devora vorazmente não apenas iPods e carros, mas também informação e "conhecimento" (definitivamente estas duas palavras NÃO são sinônimas). Parece que tudo tem que ser feito rápido e na maior quantidade possível,... afinal tempo é dinheiro?

Eu tinha a impressão de que o tempo fora inventado antes.

Enfim, há tanto num livro, num bom livro ou mesmo em um não tão bom, que não é concebível a idéia de se perpassar seus vários níveis de entendimento numa "sentada". O que enriquece não é a leitura em si, terminar o livro, chegar ao final. Saber a historinha por curiosidade e depois fechar o livro é jogar pela janela o crescimento em potencial que se poderia adquirir por meio daquela leitura. É o processo da leitura que vai permitir que o que está escrito, as intenções do narrador, a ambientação, a amarração textual mostrem-se mais claramente.

É claro que nem toda leitura é para a prova de literatura ou análise do discurso, mas a arte de ler, por excelência, excede os níveis mundanos da sociedade capitalista de produção. Ouvir Vivaldi, admirar van Gogh, ler Pessoa não faz de ninguém uma pessoa culta se esta não permitir ser tocada por todo o conteúdo inerente à estas artes. Ir ao teatro não é só para se emocionar, ou rir. É apenas pelo processo de reflexão que se permite que nossas humanidades se entrelacem e se toquem, sendo este o fim máximo do labor artístico.

Enquanto houver humanidade, haverá arte, seja escrita, oral, pintada, cantada.
Mas não se pode afirmar que enquanto houver humanidade, haverá capitalismo, consumismo, ou o American way of life.

Wednesday, March 26, 2008

Vovó de Ipanema

Tantas mulheres a mais na praia do que homens...

Em viagem não tão recente ao Rio de Janeiro não pude deixar de notar a economia no uso de peças de vestuário, da Linha Amarela à Copacabana, do aeroporto à Ipanema, e meus pensamentos se voltaram quase que imediatamente à demografia. Como em outros países em que a população está envelhecendo, o Brasil tem mais mulheres do que homens. Mas no Rio o desequilíbrio é especialmente escancarado: enquanto São Carlos apresentou 82.958 mulheres e 80.245 homens residentes no último senso, com 1,033 mulheres para cada homem (talvez sejam as escolas de engenharia) no Rio a razão é de: para cada 100 mulheres há apenas 86,4 homens, de acordo com o IBGE. Okay,vamos pegar um exemplo mais neutro que São Carlos, São Paulo então: mulheres - 4.620.804, homens - 4.106.513, 1,125 mulheres para cada homem (!).

A média brasileira é de 95 homens para cada 100 mulheres, e o Rio está bem fora desta estatística. O que acontece? Será que isso explica o tamanho dos biquínis?

A resposta em parte pode estar em três forças que regeram o país nas últimas décadas. Como no resto do país o Rio sofreu uma extraordinária transição no índice de nascimentos. Mesmo com a Igreja Católica e o governo desencorajando a contracepção por décadas, as espertas mulheres brasileiras decidiram ter menos filhos. Muitas optaram por esterilização. Um estudo do demógrafo José de Carvalho da UFMG sugere que até 40% das mulheres de 15-49 anos se tenha esterilizado. "Você encontra algumas famílias onde três gerações de mulheres foram esterilizadas após darem a luz," afirma.

Como resultado o índice de fertilidade caiu de 6.2 bebês vivos por mulher em 1960 para cerca de dois atualmente, e as pessoas continuam vivendo mais e mais. Nos últimos dez anos a expectativa de vida saltou de 68,9 para 72,4 anos. Uma população mais velha significa menos homens pois as mulheres tendem a viver mais.

Segundo, durante os últimos 50 anos milhões de mulheres mudaram-se de áreas rurais para cidades, onde mto frequentemente encontram empregos como domesticas. Isso aumentou ainda mais a diferença homens-mulheres nas cidades em comparação com o campo. Copacabana, apenas seguindo a praia Ipanema abaixo, é um dos lugares onde se encontra um dos maiores desequilíbrios em todo o país graças a alta concentração de mulheres acima dos 65 anos de idade e suas empregadas.

O terceiro fator seria a violência. A taxa de assassinato no Rio, em 40 a cada 100.000 habitantes, é extraordinariamente alta, e a maioria das vítimas são homens jovens.

Cientistas evolucionistas desenhariam uma linha reta ligando o número reduzido de 'machos', 'parceiros em potencial' para os bem educados, diretamente à necessidade das cariocas de ir a níveis além para conquistá-los... e à biquinis cada vez menores... Mas parece improvável, dado que o desequilibrio parece ser mais por causa do envelhecimento. As vovozinhas do Rio, que são as mais afetadas tadinhas, são - na massacrante maioria - um grupo tranqüilo e bem-comportado. O problema do biquini vai exigir um estudo mais profundo.